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sábado, 16 de dezembro de 2017

Queres ficar com um sorrisão? Body Combat é a solução!

Não obstante uma penosa falta de jeito para o desporto e uma coordenação motora mais do tipo “movimento aleatório dos membros”, adquiri já depois da idade para ter juízo esta mania de experimentar actividades físicas desafiantes. Nos últimos tempos tenho ido a várias primeiras aulas em busca de uma forma física e saúde melhoradas, mas o que tenho conseguido até agora é mais um acumular de experiências - divertidas para mim mas suponho que traumáticas para quem assiste - do que propriamente uma aprendizagem seja lá do que for.
Depois da miserável experiencia com o personal trainer  – responsabilidade totalmente minha, eu sei – decidi experimentar aulas de grupo. Nas aulas de grupo é tudo mais simples e giro e divertido e ninguém olha para nós (julgava eu).
Acho piada ao género militar: GI Jane, calças de camuflado, top de alças preto, luvas, alta agressividade cheia de pinta, de maneira que só o nome Body Combat motivou-me logo. Depois foi a apelativa descrição – uma aula de fitness divertida e dinâmica, inspirada em artes marciais mas sem contacto físico, à base de movimentos simples e na qual podíamos gastar cerca de 700 calorias - perfeito para mim. Apesar de saber que algures cá dentro vive uma Lara Croft ainda não tive o prazer de a conhecer, pelo que enquanto ela não se mostra, tento manter-me a uma distância segura (para todos) dos desportos de contacto.
Fui a correr.
Nada interessada em repetir a triste figura do ginásio, desta vez comprei umas leggings pretas e vesti uma t-shirt mais decente. Agarrei na toalha turca cor de rosa, nos ténis da mais nova e na garrafa de água e, se bem que ainda muito longe do meu fetichista look de mercenária, lá fui toda enérgica.
Não se deixem enganar, o facto de não haver contacto físico não retira nem um pingo de violência à modalidade. Modalidade não, aquilo é uma recruta. Só o aquecimento causou-me um frissom cardio-respiratório tal que juro, se o peito tivesse uma porta, o meu coração tinha desandado dali para fora furioso.
Mas o pequeno não se pirou. Nem ele nem eu. O resto da aula permanece uma nuvem vaga de movimentos espasmódicos ao ritmo de uma batida sonora alucinada – agora são socos esquerda direita, agora é de baixo para cima, agora troca os pezinhos para trás e para a frente com pequenos saltos, agora mais umas murraças, mais uns saltinhos, saca de pontapés para trás e para a frente e mais uns socos esquerda direita. Eu, coitadinha, bem tento, mas o ritmo é frenético e, para quem assiste, aposto que mais parece uma convulsão com 50 minutos.
Uma vez vi num filme antigo esta frase: “os cavalos suam, os homens transpiram, as senhoras cintilam”. Qual cintilam qual quê! Esta senhora sua e sua bem mais que um cavalo, garanto. As minhas atléticas companheiras e companheiros podem confirmar. Eu quase consigo apalpar a pena nos seus sorrisos encorajadores, verdadeiramente condoídos do meu esforço. Sim, porque eu esforço-me.
Ah, e quando a música acalma e penso que acabou a maluquice e desato a agradecer mentalmente à entidade divina que me impediu de quinar ali, começam as loucas séries de exercícios para os abdominais, coxas, glúteos e braços que depois do afogamento em suor, me deixaram afogada em ácido láctico durante três dias.
Mas a verdade seja dita, apesar de tudo, no final, enquanto nos contorcemos no chão a alongar músculos que nem sabíamos que tínhamos e no dia seguinte vamos desejar nunca ter tido, sentimos uma alegria inexplicável. Deixamos ali muito mais que 700 calorias, deixamos lá todas as irritações, stresses e merdinhas que nos ocupam a cabeça muito mais do que deviam. E talvez um tímpano e um bocado de um pulmão, mas nada que nos faça grande falta.
Fiquei fã.
Experimentem. Vão ver que não estou a aldrabar, é mesmo divertido.
imagem tirada da net

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Se queres continuar a sorrir, do ginásio deves fugir

Quando tratamos como lixo a preciosa jóia que é o nosso querido corpo, é natural que ele amue e se recuse a fazer-nos as mais elementares vontades, como respirar ou fazer cocó. Nós não o tratamos bem, ele não nos trata bem, é assim a vida.
Um vez amuado, desamuá-lo pode ser tarefa deveras complicada, de maneira que há que lhe lançar desafios que ele possa achar divertidos ou então corremos o risco de isto acabar realmente mal.
Quando decidi mudar o meu estilo de vida, em vez de seguir o elementar conselho que acabei de dar (o tal Frei Tomás), fiz precisamente  contrário e cometi o erro mais frequente entre a maioria de nós, malta das decisões drásticas e estúpidas: inscrevi-me num ginásio. Pois então se era para mudar, mudava como deve ser. À bruta.
Ainda nem tinha entrado a porta e já o backdraft me atingia nas ventas.
Para começar, o outfit. Oh, céus, aquilo era um festival de calças de lycra com padrão de camuflado e riscas fluorescentes, de tops justos e mangas à cava, de garrafas high tech com líquidos espumosos, de gadgets electrónicos com auscultadores e música e gráficos para monitorizar sabe-se lá o quê, de mamas hirtas e rabos firmes e salientes, de sapatilhas tecnologicamente mais avançadas que os foguetões da NASA.
E eu?
Bem, eu era mais o género idosa demente foragida da instituição que a mantém cativa há décadas: calças de algodão mais velhas que o meu casamento, t-shirt da Galp branco amarelado com a gola toda cambada, ténis da filha mais nova e toalha turca cor de rosa. O toque de modernidade, esse ficou-se pela garrafa de 33cl de água de Monchique.
Mas fugi, perguntarão? Claro que não, isso seria se fosse esperta. Não fugi. Pelo contrário, não querendo borregar logo ali, afinal a pessoa tem a sua dignidade, apressei-me a cometer o erro número dois: aceitei uma sessão de personal trainer que o ginásio estava a oferecer.
Sem o menor interesse em fazer má figura, já bem bastava o que bastava, perfilei-me junto do pequeno poste de cabeça rapada e cheiro a sovaco, com idade para ser meu filho, que me calhou em sorte (ou em azar) e fiz (ou tentei fazer) tudo o que ele me mandou: subi para a passadeira e corri como uma fugitiva, desci da passadeira e remei como uma condenada, subi para uma bicicleta e transpirei substâncias que, juro, me faziam falta para continuar viva. Torturei as minhas desgraçadas banhocas numa variedade de aparelhos hidráulicos que só existem para nos esfregar na cara quão merdosa está a nossa forma física: o das hérnias nas costas, o da paralisia nos peitorais, o das fracturas nos braços, o das lesões nas pernas. Gemi e lamuriei-me de forma tão pungente que começaram a vir pessoas ver o que se passava. Aí voltei-me para o meu compacto e entusiástico carrasco, dei três gritos e disse-lhe que me ia embora. Ele não esmoreceu, pelo contrário, considerou que eu precisava de motivação extra e espetou comigo num colchão onde me agarrou nos pés e forçou a exercícios daqueles que causam espasmos nos abdominais enquanto berrava “força”, “vai com garra”, “não desistas”.
E, apesar de ter morrido ali por alturas do remo, apesar do pivete a sovaco que afinal acho que era meu, e apesar do rapazinho me tratar por tu, eu não desisti.
Quer dizer, não desisti de viver, mas passaram muitos meses até voltar a meter lá os pés.


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Para mudarmos as vistas, temos de ser realistas

Mudar de estilo de vida parece complicado, parece uma tão grandiosa trabalheira que desmotiva - prova disso são os últimos 40 anos da minha vida. Mas, na realidade, a internet diz que é bastante simples, afinal não vamos ser atletas olímpicos nem vamos agora de repente fazer um Iron Man, vamos só procurar ter mais qualidade de vida.
Para isso basta termos presentes as 3 regras fundamentais:

1 – Sejamos realistas.
“A partir de amanhã vou deixar de fumar, fazer exercício todos os dias, emagrecer 15 quilos e dizer não ao trigo, ao glúten, ao açúcar, à gordura e aos alimentos processados”. Esqueçam. Sejamos realistas. Escolhamos uma e apenas uma mudança para fazer. É emagrecer? É comer melhor? É fazer exercício? É deixar de fumar? Foquemos-nos no que conseguimos fazer com mais facilidade primeiro e depois logo se vê.

2 - Sejamos realistas
Estabeleçamos metas que estejam ao nosso alcance. Ninguem corre uma maratona em 15 dias. Ninguém perde 35 quilos em 1 mês. Ninguém se torna um especialista em alimentação saudável numa semana. Ah, e ninguém consegue fazer as pernas ficarem mais compridas. Ninguém. Nunca.

3 – Ouviram? Sejamos realistas!
De repente tudo o que comemos demora 4 horas a ser confeccionado? Achamos mesmo que vamos passar a ir ao ginásio diariamente de manhã e à hora do almoço? Subitamente todos os vegetais que consumimos têm de ser biológicos, sustentáveis e comprados na mercearia espectacular que fica a 25 quilómetros da nossa casa? Pá, as mudanças não se fazem sozinhas, planeemos o nosso dia incorporando nele as alterações que decidimos fazer. E sejamos realistas, desenhemos plano que possamos cumprir. Tá?

(vou ali dar uns tabefes numas lentilhas que deixei a demolhar na semana passada. Já desenvolveram coisas com pernas, não tarda nada estão na sala a ver televisão, as malandras).



segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Indo eu, indo eu a Caminho de...Santiago #19 - Etapa 4 - Padron - Santiago

Já dizia Einstein, julgo eu, que a diferença entre o Universo e a estupidez é que a estupidez não tem limites. De facto, a minha não tem mesmo.
Pois que decidimos partir de Padrón rumo a Santiago em plena hora de almoço sem sequer almoçamos. A temperatura estava de fornalha e já levávamos cerca de 20 km nas pernas, mas não, não pensamos em nada disto. Para nós era tudo facilidades. E ao princípio até correu bem, só que cerca de 5km depois da partida começaram a doer-me os pés outra vez. Durante os 23 km que se seguiram (sim, porque de Padrón a Santiago são perto de 28km) foi sempre a piorar. Depois dos pés, durante algum tempo também tive dores nos quadríceps mas essas dores pararam e deram lugar a dores nos gémeos. Passado um tempo os gémeos deixaram de incomodar mas surgiu uma dor aguda na base das costas que acabou por desaparecer para ceder passagem a um inchaço violento nos pulsos que acabou por desaparecer para deixar brilhar uma intensa dor nas canelas. 
Em suma, acho que o meu corpo começou a ficar tão cansado que desatou a disparar dores aleatórias na esperança que alguma delas me fizesse parar. Enganou-se. Por esta altura o meu corpo já devia saber com quem está a lidar, se era para chegar a Santiago a pé, pois chegaríamos a Santiago a pé.
É incrível como dependendo do estado de exaustão em que nos encontramos a nossa percepção das distâncias muda tanto. Se os primeiros 20 km feitos em pouco mais de 4 horas nos pareceram um passeio no parque, agora cada 100 metros pareciam uma peregrinação inteira. Mas continuamos. E não paramos. E fomos falando cada vez menos até nos limitarmos a palavrões. Sim. Palavrões. Feios, porcos e maus, sussurrados com a cadência de uma respiração ofegante: "fodaaaaaaaa-seeeeeee, porra, merda, cabrões..." enfim.
À entrada de Santiago, 12 horas depois da partida, mortas e sem bateria nos telemóveis, de cada vez que perguntávamos a direcção da Catedral a alguém as pessoas levantavam as sobrancelhas e, com a mesma expressão chocada com que responderiam se tivéssemos perguntado o caminho para Nova Iorque a partir de Toronto, agitavam a mão na direcção correcta e proferiam um "toooodo recto, tooooodo recto". Posso garantir que naqueles momentos tudo conta, tudo desmotiva, e aquela expressão no rosto das pessoas, oh se desmotiva. 
Era noite escura quando chegamos à entrada do passeio que leva à Catedral. Tinham passado 13 horas desde a partida de Caldas de Reis. Estávamos exaustas, com fome, sede e dores nos pés. Passou um táxi, entramos, demos a morada do Hostel e decidimos deixar a apoteose para o dia seguinte, quando estivéssemos capazes de apreciar o momento.
Na manhã seguinte acordamos muito cedo, tomamos um soberbo pequeno almoço na cidade velha, pedimos a nossa Compostela (essa sim, a verdadeira peregrinação com centenas de pessoas na fila), visitamos Santiago de lés a lés, almoçamos maravilhosamente numa esplanada junto da Catedral, metemos os nossos rabiosques num muy cómodo autocarro FlixBus e rumámos ao Porto onde apanhamos o comboio para Lisboa.
A conclusão:
Foi sem dúvida uma experiência intensa. O desafio físico, o teste dos nossos limites é muito interessante. Somos muito mais resistentes e estes estão sempre muito mais longe do que nós julgamos.
Não teve aquele impacto espiritual que eu esperava, não se acendeu nenhuma luz dentro de mim nem regressei uma pessoa diferente - sou a mesma com menos uns 2 kg, vá. Mas há uma espécie de cordão que nos liga aos outros peregrinos, uma certa dimensão humana proveniente da partilha de um destino, que eu adorei. Adoro pessoas, adoro conversar com pessoas, adoro saber das pessoas. Somos todos tão diferentes, é tão enriquecedor. Como disse Pío Baroja "... o nacionalismo cura-se viajando". Não podia estar mais de acordo.
É mais que certo que repetirei, mas com algumas correcções: gostaria de descobrir um percurso mais bonito, os dois primeiros dias deste deixaram muito a desejar; a distância máxima entre etapas terá de ser de 30 km, nunca mais que isso; acabaram-se os albergues, sempre que possível ficarei em hotéis; e terei de comprar umas palmilhas para as botas. 
Com estas condições acho que para a próxima vou desde o Porto. Ou desde França.

Espero que tenham gostado, se nem por isso, pelo menos que este relato venha a ser útil a alguém que tenha planos para embarcar numa aventura destas.

Obrigada por me terem acompanhado, continuarei por aqui a partilhar o que eu acho sobre coisas. 




quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Indo eu, indo eu a Caminho de... Santiago #18 - Etapa 4 - Caldas de Reis - Padron (Santiago)

Ok, esta coisa do albergue ter a sala de refeições fechada é chata.  Como batemos com o nariz na porta acabamos a tomar o pequeno almoço sentadas na recepção, mas pronto. Fez-se.
Ainda estava noite cerrada quando partimos. Não se via vivalma nas ruas e nós sabíamos tanto para que lado ir como se estivéssemos em pleno deserto do Sahara. Vagueamos um pouco por ali quando reparamos numa mochileira com uma cabeleira tão loira e encaracolada que parecia feita de fusili, a caminhar de mapa numa mão e lanterna na outra, toda rápida e decidida. Fomos atrás dela. Era israelita, cerca de 50 anos, e estava a fazer o caminho com a mãe, que estava cansada e nesse dia faria a etapa de táxi. Explicou-nos a direcção mas não estava para conversas, queria despachar-se, e desandou. 
A nossa ideia era fazer a etapa até Padron e deixar para o dia seguinte o resto do percurso até Santiago de Compostela. Fizemos os primeiros cerca de 20 km num instante. Estava fresco, os meus pés aparentemente estavam a habituar-se à selvajaria a que eu tinha decidido submetê-los nos últimos dias, tudo bem. 
Chegamos a Padron antes da hora do almoço, frescas e bem dispostas. Sentamos-nos num banco de uma praça a comer barritas da Tia Cátia e a beber água, olhámos em volta, olhámos uma para a outra...  e decidimos continuar. Afinal dali a Santiago era só mais uma tirada parecida com a que tínhamos acabado de fazer tão bem, seriam 40 km num dia, já dois dias antes tínhamos feito 38km e sobrevivido. 
Sabíamos que íamos chegar tarde, decidimos não arriscar a partida sem termos a dormida garantida. E fizemos tão bem. Não havia vagas em nenhum dos hotéis, albergues e hostéis para onde ligámos e estávamos mesmo quase a desistir quando por fim conseguimos reservar duas camas num hostel que nem sequer percebemos onde era ao certo. Mas tínhamos consciência de que chegaríamos muito cansadas, essa salvaguarda deixou-nos mais confiantes. 
Demos uma volta em Padron, terra de onde são originários os pimentos de Padron, uns são picantes outros non, como disse um dos alentejanos com quem partilhamos a mesa na véspera, entrámos na bela Igreja, conversamos com uma senhora muito simpática que nos explicou muitas coisas, entre elas o significado da concha dos peregrinos: os apóstolos eram todos pescadores, a concha simboliza o mar. Também, pelo seu formato, serve para comer e para beber, e por isso para partilhar, é este o espírito do peregrino. 
Estava certo, decidimos comprar uma concha para cada uma em Santiago, só então seríamos peregrinas encartadas.
Por volta das 13h partimos rumo a Santiago de Compostela.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Indo eu, indo eu a Caminho de...Santiago #17 - Etapa 3- Pontevedra-Caldas de Reis

Dormir num hotel é bom e sabe bem, já sabíamos isso, mas é mordomia com um problema: acordar de manhã é muito mais difícil (a caminha, o silêncio e a privacidade são um vício que nos agarra sem piedade), a saída é muito mais lenta e acabamos por fazer o percurso quase todo debaixo de um sol escaldante.
Pontevedra é uma terrinha muito gira. Toda em pedra, está bem estimada e limpa, nada como a grande parte dos sítios por onde temos passado, o que foi bom para variar. É um ponto de encontro de peregrinos, pelo que de manhã tem um grande movimento de mochileiros e táxigrinos - o nome que os mais profissionais da coisa dão à malta que vai de mãos nos bolsos, aqueles que pagam a alguém para lhes transportar as malas de destino para destino. Este movimento é intenso logo deste a bela ponte velha que junta as margens do rio Lérez, onde fizemos amizade com um super animado e enérgico grupo de seis aveirenses. Claro que aqui as lebres estavam com o fogo no rabo o que levou os nossos companheiros a cedo desistirem de nós.
Continuamos animadas e sozinhas, afinal estavam previstos apenas 21 km, o que era isso para nós, que vínhamos de um sobrevivo dia de 38? Mas assim que o sol se pôs a pique não sei se foi da estafa do dia anterior, se foi da exposição ao calor excessivo resultado da sorna matinal, não sei do que foi mas os meus pés começaram outra vez a doer, as plantas dos pés, o que nos fez abrandar e foi motivo de gozo dos aveirenses que depressa nos ultrapassaram.
É uma etapa com pouca sombra, com bastantes subidas e muito caminho pelo meio de vinhas. A certa altura entramos num café para comprar água, talvez o único por onde passamos nesse dia,  onde estavam duas peregrinas chinesas a carimbar as credenciais e eu aproveitei para carimbar as nossas também. Uma delas olha para a minha, topa o carimbo de um hotel e grita "oh, you been in a hotel? A hotel?" tão alarmada que, fosse o caso de eu não entender o inglês macarronico, ainda teria julgado que ela me estava a avisar que tinha uma víbora a descer-me pelo pescoço. Sim, um hotel, qual é o mal?
Também quase não há fontes neste percurso. E estava tudo tão seco! Todos os ribeiros e riachos, tudo seco. Verdade seja dita que de resto estava tudo absolutamente impecável: água fresca nas garrafas, paisagem bonita, mochila super, bolhas zero, chapéu cinco estrelas, mãos magrinhas. Tudo menos os meus pés. Oh os meus pés, a dor excruciante de caminhar sobre facas, caramba.
Perto de Caldas de Reis vimos um cartaz a anunciar o Albergue Cruzeiro e recordamos que o Miguel, o nosso monitor da Serra do Risco, nos tinha dito que ali teríamos de ficar no Cruzeiro, o albergue municipal é impróprio para consumo, diz ele, nós não sabemos. Agarro no telefone e, fazendo o melhor uso daquele idioma universal que é o portunhol, marco um quarto. Era para quatro pessoas, mas não fazia mal, custava 12€ a cada uma e sempre seria melhor partilhar o espaço com outros 2 que com outros 22.
Lá chegamos, eu de rastos, a Inês fresca como se em vez de 23 quilómetros tivesse caminhado 23 passos (mais uma vez ludibriadas pela internet). Por mero acaso fomos direitas às águas, o sítio onde a tradição manda mergulhar os pézinhos à chegada, mas a simples visão de vários pares de extremidades transpiradas, e quiça micóticas, a demolhar no mesmo tanque fez-nos quase correr para o albergue onde a ausência dos nossos companheiros nos permitiu uma belíssima e bem mais higiénica banhoca.
Pouco depois eles chegaram, a Donatella e o Enrico, um casal de pequenos sexagenários italianos que pareciam dopados. Nós deitadas nas nossas camas, de pernas para o ar, vaselina a absorver nos pés, sem energia nem para alongar as pálpebras e eles, mais ela na verdade, num frenesim: lavou roupa, estendeu-a, desmancharam mochilas, fizeram camas, tomaram um duche e desandaram porta fora. Já nós só saímos um bom bocado depois. Arrastámos-nos pelo passeio, fomos ao supermercado e acabamos abancadas primeiro numa esplanada onde bebemos umas cervejas bem fresquinhas com o Jeremiah, que entretanto apareceu ali sozinho com o seu belo sorriso e um calcanhar todo deitado abaixo, e a seguir, de novo sozinhas, num tasco de aspecto duvidoso mas bastante pitoresco onde comemos umas muito boas tapas acompanhadas de mais umas cañas. 
As mesas corridas facilitam este tipo de interacção e acabamos a partilhar a nossa com um grupo de cinco divertidos alentejanos de Torres Novas - três rapazes e duas raparigas. Vinham de Valença, como nós - aleluia! já começávamos a achar que ninguém partia de tão perto de Santiago como nós. 
Regressamos ao nosso albergue um bocadinho às pressas com receio de acordarmos os nossos parceiros idosos apenas para constatar que eles ainda não tinham chegado. E já o fizeram uma boa meia hora depois de nós, os doidos. Conversamos ainda durante um bocado mas a noitada não os impediu de se levantarem ao toque do nosso despertador, às 5.30 da manhã (já não íamos arriscar outra caminhada à torreira do sol, somos parvas ou quê?) frescos e enérgicos como no dia anterior. 
o Caminho e os amigos italianos


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Indo eu, indo eu a Caminho de...Santiago #15 - Etapa 1- Valença-Porriño

Partimos da Gare do Oriente no dia 2 de Outubro ao fim da tarde, no Alfa Pendular, rumo à Campanhã e transbordamos para o IR até Valença do Minho onde chegamos já perto das 11 da noite.

O Balerdi B&B revelou-se uma bela surpresa. O dono, espanhol, estava à nossa espera com um quarto impecavelmente limpo, e foi muito querido porque, quando lhe explicamos que teríamos de deixar a noite paga e prescindir do pequeno almoço porque teríamos de sair por volta das 6.30 da manhã, ele ofereceu-se logo para nos preparar a refeição às 6h e ainda se lembrou de nos carimbar a Credencial do Peregrino, coisa que a nós nem nos tinha passado pela cabeça.

Antes da partida, preocupadas com as bolhas fizemos o que dizem os manuais - protegemos os pés. Com o quê? A internet é prolixa no que diz respeito a este assunto. Há quem use vaselina ou o stick anti - fricção da Compeed (que nós também levamos para o caso). Mais tarde descobrimos que o Biafine também é uma opção muito apreciada. Mas isto de ter um marido ciclista tem as suas vantagens e decidimos inovar com o creme que os ciclistas usam para proteger o rabo das assaduras.
O Balerdi B&B fica mesmo junto do Caminho, o que facilitou ali no arranque, às 6.30 ainda é noite cerrada - as lanternas revelaram-se uma excelente aposta, a luz do telemóvel não é, nem de perto nem de longe, suficiente. Caminhamos durante cerca de duas horas. Em Tui o Caminho tem ali umas partes em que não está assim tão bem sinalizado, o que resultou num desvio de cerca de 2 km, mas lá nos orientamos e seguimos até à primeira paragem para comer e descansar. Tínhamos trazido de Lisboa alguma fruta para o início e umas deliciosas barritas home made, feitas pela grande Chef Cátia Goarmon, que já nos tinham sido preciosas na véspera ao jantar e nos ajudaram muito em todos os outros dias. Não estava ainda muito calor mas já tínhamos bebido alguma água e aí tivemos a primeira surpresa peregrina - junto da fonte onde fomos reabastecer havia uma taça com maçãs. Percebemos depois que é frequente haver fruta para os peregrinos junto das fontes. 
Esta parte do Caminho foi uma desilusão em termos estéticos e olfativos. Anda-se muito por estradas feiosas  (a arquitectura daquela zona não é propriamente bonita), ruidosas e poluídas. A segunda parte é melhor, há mais caminhos de serra, mas para evitar assentar os pézinhos nos inúmeros montes de bosta de cavalo, tivemos de caminhar um bom bocado como elefantes a atravessar o rio, de nenúfar em nenúfar.
Chegamos a Porriño 5 horas e 25 km depois da partida, muito cansadas mas sem dores nem mazelas, direitinhas ao albergue municipal. 
Para se ficar nos albergues municipais é obrigatório ter a Credencial do Peregrino. Não sei se já falei nisto, mas a Credencial pede-se por correio ou, no nosso caso, na Sé de Lisboa e custa 2€. Esta Credencial serve para nos dar acesso aos albergues e, quando carimbada em 2 locais por dia, se cumprirmos um mínimo de 100km a pé ou 200km de bicicleta, ainda nos dá direito à Compostela, o certificado que nos dão na Catedral de Santiago. 
O Albergue paga-se à entrada. Custa 6€ e dão-nos um kit de lençol e fronha descartáveis. Tem duas camaratas com beliches, tudo limpo e arejado, mas, por muito boa vontade que tenhamos e apesar de termos desmaiado ali durante um bocado antes do jantar,  é difícil descansar numa camarata cheia de gente. 
A casa de banho e os balneários estavam bem limpos, existe uma cozinha, para quem leva o equipamento necessário e vai numa de cozinhar as suas refeições, e ainda há uma muito útil zona de lavandaria com estendal.
Uma nota: entre as 16h e as 20h está rigorosamente tudo fechado, não se consegue comer nada em parte nenhuma. A partir dessa hora, os restaurantes estão a abarrotar de gente, é complicado arranjar mesa e impossível comer uma sopa (e nós queríamos tanto uma sopinha!). Como o recolher no albergue é às 22h fica tudo um bocado a correr.
O descanso é fundamental, por isso não ficamos fãs deste modelo de pernoita. 



terça-feira, 17 de outubro de 2017

Indo eu, indo eu a Caminho de... Santiago #13 - A mochila

Um detalhe que andava a tirar-me o sono era a inexistência de uma mochila decente nesta casa. Ora sendo esta uma peça fundamental para o sucesso da nossa aventura, e já que teria de adquirir uma, havia que escolhê-la com critério e minúcia.
O peso é fundamental, já sabemos, mas o preço não pode ser ignorado. Nem o conforto.
Portanto, num destes domingos, lá fomos nós passear aos estabelecimentos comerciais do género. Mas claro que nunca sem antes fazer o meu costumeiro périplo por esta Internet fora, no qual visitei todos os blogues e sites cujo assunto contivesse as palavras Trekking, Hiking, Caminho de Santiago, Acampamento e Actividades Ao Ar Livre.

Descobri que, para uma caminhada de uma semana, a mochila deve ter uma capacidade máxima de entre 30L a 40L. No geral é isto que os veteranos defendem. Uma mochila com capacidade para meter lá dentro este mundo e o outro, acho. Mas eu ia determinada a carregar com o  mínimo peso possível, tenho muito pouco sangue de mula a correr-me nas veias e na hora de acartar não ando cá com frescuras - é levar o mínimo e pronto. Por isso fui direitinha às mochilas de 30L.
Experimentei várias e descobri uma de que gostei. Era confortável, costas rígidas e arejadas, fecho para a fixar na cintura e no peito, várias bolsas e bolsinhas, suporte para os polegares, alças moles, capa impermeável, tudo o que os sites mandavam acautelar. E custava 27€. Fiquei muito contente. Preparava-me para me ir embora com a minha nova aquisição quando o meu querido e amado cônjuge apareceu com uma mochila igualzinha, mas de 20L. Comecei por reclamar, seria demasiado pequena, tão pequena que nem o saco cama caberia lá dentro. Ele voltou atrás e regressou com outro saco cama - uma coisa espectacular - um saquinho muito mais pequeno do que o outro, com um peso 200gr inferior e um preço de apenas mais 10€. Pensei um bocadinho. Olhei para o preço da mochila mais pequena, custava menos 5€ que a outra, portanto o saco cama, na realidade, custaria apenas mais 5€. E nós iríamos muito mais leves (sim, nós, porque estamos tipo pirosas a comprar quase tudo igual). Nunca esquecer, a regra de ouro: o foco é sempre o peso.

E pronto. Venha a mochila e venha o saco cama. Foi por este motivo que acabei por não levar o outro.
Deixo aqui a fotografia da mochila e um comparativo entre os dois sacos-cama para se ver bem a diferença.
(Mais tarde voltei lá para devolver o preto).
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sábado, 29 de abril de 2017

Jogo da Baleia Azul ou Jogo do Porco Beje?

As últimas  notícias dão conta de umas pessoas que, através de mensagens na Internet, convencem os adolescentes a fazerem as maiores idiotices durante 50 dias, até acabarem por se suicidar.  
O alegado criador do jogo chama-se Filipp Budeykin e é um jovem russo aparentemente meio doido e estúpido. 
Por aqui se vê que isto na Russia está mesmo mal- então o rapaz tem uma ideia tão vencedora e depois concretiza-a de forma tão pobrezinha, com cenas de auto mutilação e filmes de terror e suicídios? Que jeito tem isso? 
Realmente as pessoas não conseguem ver uma boa ideia nem quando são elas a tê-la, caramba! 
O conceito é um verdadeiro portento com um potencial extraordinário, fiquem sabendo. 
Pois se um russo qualquer, que eles não conhecem de parte nenhuma, desata a enviar desafios aos nossos adolescentes via redes sociais e eles vão a correr cumprir, então imaginem onde nós, os pais que eles adoram e respeitam, podemos chegar com isto.
Temos de fazer já a versão Portuguesa do jogo. 
Para começar, as nossas versões são sempre muito melhores. Temos os melhores descobrimentos, os melhores estádios, os melhores pasteis de nata ... com umas pequenas alterações será fácil termos também o melhor Jogo.
Para evitarmos acusações (falsas) de plágio, vamos começar por lhe mudar o nome para Jogo do Porco Beje. A Baleia Azul não tem graça nenhuma. Até é fofinha, mas é enorme, come imenso e arrasta-se por ali sem fazer nada de especial na vida. É, já vimos isto em qualquer lado, não já? O Porco também é porco, mas dá um exemplo melhor. Quer dizer, também anda por ali sem fazer nenhum, mas é muito fácil de treinar (capacidade que pelos vistos não é comum aos seres humanos de certas idades), é autónomo (suponho que não passe a vida a pedinchar dinheiro e boleias) e come pouco (isso é que era!). A cor também é importante porque há sempre aquelas embirrações do que não gosta de azul e do que prefere roxo, assim usa-se um tom neutro que fica sempre bem e toda a gente fica feliz.  
A estrutura base será semelhante: envio de desafios via redes sociais, só que em vez destes, os nossos serão úteis e construtivos e giros (hum... giros talvez não).

Critérios:
Para começar serão menos. 50 desafios é imenso. Os coitados dos miúdos, se até para fazerem as provas de aferição do 4º ano têm crises de ansiedade, então depois de 50 desafios nem é preciso mandá-los matarem-se, eles já foram sozinhos.
Portanto, faremos a coisa com uns 10 ou 15 desafios. Até é mais simples para nós nos lembrarmos, que a pessoa já não vai para nova e às vezes esquece-se das coisas.
Depois, os desafios não podem exigir resposta verbal. Os adolescentes demonstram grande dificuldade com a verbalização no geral, mas com os progenitores em concreto, limitando as interacções a grunhidos (reparo agora que até nesta matéria o porco faz sentido). 
Por fim, também não podem exigir que eles se movimentem sem arrastar os pés. Tal como o porco não consegue olhar para o céu, a anatomia do adolescente não lhe permite movimentar-se sem arrastar os pés.

Os Desafios:
1 - Toma um duche. Envia foto ao curador. Repete por 30 dias consecutivos.
2 - Arruma a toalha de banho. Repete todos os dias por 30 dias consecutivos.
3 - Faz a tua cama. Repete todas as manhãs por 30 dias consecutivos.
4 - Arruma o teu quarto. Repete todas as manhãs por 30 dias consecutivos.
5 - Tira o lixo que está dentro da tua mochila. Envia foto ao curador. Repete no mínimo 3 vezes ao longo de 30 dias
6 - Quando saíres do teu quarto leva as taças de cereais que estiverem sobre a tua secretária. Ouviste?Repete por 30 dias consecutivos.
7 - Mete o equipamento da ginástica para lavar. Repete todas as 3ªas e 5ªs.
8- Põe a mesa sem reclamar. Repete 15 vezes em 30 dias.
9 - Levanta a mesa. Sem reclamar (e deixa o chão varrido, os restos no frigorífico e a máquina ligada). Repete 15 vezes em 30 dias.
10 - Vai estudar. Repete em 22 dos 30 dias.
11- Limpa a pasta de dentes do lavatório. Repete por 30 dias consecutivos.
12 -Tira aquela porcaria que está e entupir o ralo da banheira. REPETE TODOS OS DIAS. TODOS.

Estão a ver como é simples? 
Claro que dá para adaptar, podemos incluir desafios que envolvem transportar os irmãos, aspirar a casa ou massajar-nos os pés. Isso agora é com cada um.

O Desafio final.
Cumpridos todos os desafios com sucesso, chegamos ao objectivo do jogo, o Desafio Final. Este será sempre o mesmo e consiste no envio de uma mensagem ao adolescente no último dia do mês com o texto:

DESAFIO FINAL - Vem receber a tua mesada. Repete uma vez em cada 30 dias.

E pronto, agora é só começar. 

Eles vão adorar não vão?



sexta-feira, 28 de abril de 2017

Alguém que me explique por favor #1 - Detergente Surf

Uma coisa que sempre me irritou foi a publicidade aos produtos para o lar e para a família usarem sempre o mesmo conceito de: mulher = dona de casa competente = cozinheira do caraças = mãe extremosa.
Como se:
a) as mulheres fossem todas assim e todas iguais
b) os homens não existissem dentro de casa.
Entretanto este tipo de comunicação ficou completamente datado e começamos a ver umas coisas mais modernaças e arrojadas, tipo uns anúncios da Knorr em que é o protagonista é um Chef famoso e tal.
Mas, como esta malta corre veloz, eis que dou de caras com isto:



Confesso que fiquei baralhada. Não sei, talvez seja eu que sou meio burra, mas a visão do rapaz-strip-dancer-ex-jogador-do-estrela-da-amadora-com olhar-de-galã-dos-olivais em tronco nu ao lado da embalagem de Surf, eu cá não sei, mas a mim não me atinge nem de raspão.
Querem o quê, que eu vá a correr comprar Surf porque me pode calhar um destes dentro do frasco? A roupa lavada com Surf faz o meu homem ficar com este aspecto? É suposto eu desejar isto?
Ah, espera, já sei! Isto é a nouvelle vague da publicidade, daaah, os detergentes estão a comunicar para os homens, que parva!
Então, se comprares este detergente a tua miúda passa a olhar para ti como se fosses este gajo? Não precisas de ir mais ao ginásio porque lavar a roupa com Surf dá-te este corpinho?
Se és Homem fazes as tarefas domésticas, compras Surf e orgulhas-te?
Bem, se é essa a ideia deixem-me dizer que tenho uma muuuuuito melhor. Eis o guião:

"Vemos um quarentão pintoso entrar em casa com os dois filhos pequenos depois de um dia de trabalho. Mesmo antes de despir o casaco, ele dirige-se à cozinha, pega no cesto da roupa suja, despeja-o na bancada e começa a ver as peças uma por uma. Separa a roupa branca da de cor e, após uns segundos de ponderação, decide fazer a máquina de brancos.
Tira uma nódoa de gordura de uma toalha com detergente da loiça, esfrega uma outra mancha numa blusa com SuperGel e borrifa umas cuecas com spray de pré-lavagem. Mete a roupa dentro da máquina, despeja o maravilhoso Surf no depósito, e liga-a. Começa a fazer o jantar.
Vamos alguns planos rápidos dele a ligar o micro ondas no "descongelar", a picar uma cebola, a regar o fundo de uma panela com azeite, a largar um foda-se quando a gordura lhe salpica a gravata. Vemos o arroz de frango no forno enquanto ele dá banho aos miúdos. Mais uma série de planos dele a secar-lhes o cabelo, a vesti-los, a lutar com eles para calçarem as meias, a correr para a cozinha, a tirar o arroz do forno e a por a mesa.
Vemos a mulher entrar em casa, estourada, e sentar-se no sofá. Ele chama para a mesa, mas ela não vai logo porque está a ver uma coisa no telemóvel. Vemos que ele chama de novo e ela lá se arrasta, descalça, sem tirar os olhos do telemóvel. Durante o jantar falam pouco, ela ignora as crianças - deve ter trabalho para fazer porque continua agarrada ao aparelho. Depois do jantar ela abanca a ver o Benfica. Ele vai estender a roupa. Ela vibra com cada oportunidade de golo e ele, enquanto arruma a cozinha, consegue perceber o que vai acontecendo pelos gritos de alegria ou fúria que escuta. Ela envia-lhe um sms cheio de emojis queridos a pedir para, quando ele puder, lhe levar uma cerveja. Ele acaba de preparar os almoços para o dia seguinte, pega na cerveja e vai ter com ela à sala. Quando olha para o televisor o jogo já terminou e ela está a ressonar no sofá".

Isto é que era um anúncio, qual rapazinho de tronco nu. Deixem-se de tretas!