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segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Indo eu, indo eu a Caminho de...Santiago #19 - Etapa 4 - Padron - Santiago

Já dizia Einstein, julgo eu, que a diferença entre o Universo e a estupidez é que a estupidez não tem limites. De facto, a minha não tem mesmo.
Pois que decidimos partir de Padrón rumo a Santiago em plena hora de almoço sem sequer almoçamos. A temperatura estava de fornalha e já levávamos cerca de 20 km nas pernas, mas não, não pensamos em nada disto. Para nós era tudo facilidades. E ao princípio até correu bem, só que cerca de 5km depois da partida começaram a doer-me os pés outra vez. Durante os 23 km que se seguiram (sim, porque de Padrón a Santiago são perto de 28km) foi sempre a piorar. Depois dos pés, durante algum tempo também tive dores nos quadríceps mas essas dores pararam e deram lugar a dores nos gémeos. Passado um tempo os gémeos deixaram de incomodar mas surgiu uma dor aguda na base das costas que acabou por desaparecer para ceder passagem a um inchaço violento nos pulsos que acabou por desaparecer para deixar brilhar uma intensa dor nas canelas. 
Em suma, acho que o meu corpo começou a ficar tão cansado que desatou a disparar dores aleatórias na esperança que alguma delas me fizesse parar. Enganou-se. Por esta altura o meu corpo já devia saber com quem está a lidar, se era para chegar a Santiago a pé, pois chegaríamos a Santiago a pé.
É incrível como dependendo do estado de exaustão em que nos encontramos a nossa percepção das distâncias muda tanto. Se os primeiros 20 km feitos em pouco mais de 4 horas nos pareceram um passeio no parque, agora cada 100 metros pareciam uma peregrinação inteira. Mas continuamos. E não paramos. E fomos falando cada vez menos até nos limitarmos a palavrões. Sim. Palavrões. Feios, porcos e maus, sussurrados com a cadência de uma respiração ofegante: "fodaaaaaaaa-seeeeeee, porra, merda, cabrões..." enfim.
À entrada de Santiago, 12 horas depois da partida, mortas e sem bateria nos telemóveis, de cada vez que perguntávamos a direcção da Catedral a alguém as pessoas levantavam as sobrancelhas e, com a mesma expressão chocada com que responderiam se tivéssemos perguntado o caminho para Nova Iorque a partir de Toronto, agitavam a mão na direcção correcta e proferiam um "toooodo recto, tooooodo recto". Posso garantir que naqueles momentos tudo conta, tudo desmotiva, e aquela expressão no rosto das pessoas, oh se desmotiva. 
Era noite escura quando chegamos à entrada do passeio que leva à Catedral. Tinham passado 13 horas desde a partida de Caldas de Reis. Estávamos exaustas, com fome, sede e dores nos pés. Passou um táxi, entramos, demos a morada do Hostel e decidimos deixar a apoteose para o dia seguinte, quando estivéssemos capazes de apreciar o momento.
Na manhã seguinte acordamos muito cedo, tomamos um soberbo pequeno almoço na cidade velha, pedimos a nossa Compostela (essa sim, a verdadeira peregrinação com centenas de pessoas na fila), visitamos Santiago de lés a lés, almoçamos maravilhosamente numa esplanada junto da Catedral, metemos os nossos rabiosques num muy cómodo autocarro FlixBus e rumámos ao Porto onde apanhamos o comboio para Lisboa.
A conclusão:
Foi sem dúvida uma experiência intensa. O desafio físico, o teste dos nossos limites é muito interessante. Somos muito mais resistentes e estes estão sempre muito mais longe do que nós julgamos.
Não teve aquele impacto espiritual que eu esperava, não se acendeu nenhuma luz dentro de mim nem regressei uma pessoa diferente - sou a mesma com menos uns 2 kg, vá. Mas há uma espécie de cordão que nos liga aos outros peregrinos, uma certa dimensão humana proveniente da partilha de um destino, que eu adorei. Adoro pessoas, adoro conversar com pessoas, adoro saber das pessoas. Somos todos tão diferentes, é tão enriquecedor. Como disse Pío Baroja "... o nacionalismo cura-se viajando". Não podia estar mais de acordo.
É mais que certo que repetirei, mas com algumas correcções: gostaria de descobrir um percurso mais bonito, os dois primeiros dias deste deixaram muito a desejar; a distância máxima entre etapas terá de ser de 30 km, nunca mais que isso; acabaram-se os albergues, sempre que possível ficarei em hotéis; e terei de comprar umas palmilhas para as botas. 
Com estas condições acho que para a próxima vou desde o Porto. Ou desde França.

Espero que tenham gostado, se nem por isso, pelo menos que este relato venha a ser útil a alguém que tenha planos para embarcar numa aventura destas.

Obrigada por me terem acompanhado, continuarei por aqui a partilhar o que eu acho sobre coisas. 




quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Indo eu, indo eu a Caminho de... Santiago #18 - Etapa 4 - Caldas de Reis - Padron (Santiago)

Ok, esta coisa do albergue ter a sala de refeições fechada é chata.  Como batemos com o nariz na porta acabamos a tomar o pequeno almoço sentadas na recepção, mas pronto. Fez-se.
Ainda estava noite cerrada quando partimos. Não se via vivalma nas ruas e nós sabíamos tanto para que lado ir como se estivéssemos em pleno deserto do Sahara. Vagueamos um pouco por ali quando reparamos numa mochileira com uma cabeleira tão loira e encaracolada que parecia feita de fusili, a caminhar de mapa numa mão e lanterna na outra, toda rápida e decidida. Fomos atrás dela. Era israelita, cerca de 50 anos, e estava a fazer o caminho com a mãe, que estava cansada e nesse dia faria a etapa de táxi. Explicou-nos a direcção mas não estava para conversas, queria despachar-se, e desandou. 
A nossa ideia era fazer a etapa até Padron e deixar para o dia seguinte o resto do percurso até Santiago de Compostela. Fizemos os primeiros cerca de 20 km num instante. Estava fresco, os meus pés aparentemente estavam a habituar-se à selvajaria a que eu tinha decidido submetê-los nos últimos dias, tudo bem. 
Chegamos a Padron antes da hora do almoço, frescas e bem dispostas. Sentamos-nos num banco de uma praça a comer barritas da Tia Cátia e a beber água, olhámos em volta, olhámos uma para a outra...  e decidimos continuar. Afinal dali a Santiago era só mais uma tirada parecida com a que tínhamos acabado de fazer tão bem, seriam 40 km num dia, já dois dias antes tínhamos feito 38km e sobrevivido. 
Sabíamos que íamos chegar tarde, decidimos não arriscar a partida sem termos a dormida garantida. E fizemos tão bem. Não havia vagas em nenhum dos hotéis, albergues e hostéis para onde ligámos e estávamos mesmo quase a desistir quando por fim conseguimos reservar duas camas num hostel que nem sequer percebemos onde era ao certo. Mas tínhamos consciência de que chegaríamos muito cansadas, essa salvaguarda deixou-nos mais confiantes. 
Demos uma volta em Padron, terra de onde são originários os pimentos de Padron, uns são picantes outros non, como disse um dos alentejanos com quem partilhamos a mesa na véspera, entrámos na bela Igreja, conversamos com uma senhora muito simpática que nos explicou muitas coisas, entre elas o significado da concha dos peregrinos: os apóstolos eram todos pescadores, a concha simboliza o mar. Também, pelo seu formato, serve para comer e para beber, e por isso para partilhar, é este o espírito do peregrino. 
Estava certo, decidimos comprar uma concha para cada uma em Santiago, só então seríamos peregrinas encartadas.
Por volta das 13h partimos rumo a Santiago de Compostela.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Indo eu, indo eu a Caminho de...Santiago #17 - Etapa 3- Pontevedra-Caldas de Reis

Dormir num hotel é bom e sabe bem, já sabíamos isso, mas é mordomia com um problema: acordar de manhã é muito mais difícil (a caminha, o silêncio e a privacidade são um vício que nos agarra sem piedade), a saída é muito mais lenta e acabamos por fazer o percurso quase todo debaixo de um sol escaldante.
Pontevedra é uma terrinha muito gira. Toda em pedra, está bem estimada e limpa, nada como a grande parte dos sítios por onde temos passado, o que foi bom para variar. É um ponto de encontro de peregrinos, pelo que de manhã tem um grande movimento de mochileiros e táxigrinos - o nome que os mais profissionais da coisa dão à malta que vai de mãos nos bolsos, aqueles que pagam a alguém para lhes transportar as malas de destino para destino. Este movimento é intenso logo deste a bela ponte velha que junta as margens do rio Lérez, onde fizemos amizade com um super animado e enérgico grupo de seis aveirenses. Claro que aqui as lebres estavam com o fogo no rabo o que levou os nossos companheiros a cedo desistirem de nós.
Continuamos animadas e sozinhas, afinal estavam previstos apenas 21 km, o que era isso para nós, que vínhamos de um sobrevivo dia de 38? Mas assim que o sol se pôs a pique não sei se foi da estafa do dia anterior, se foi da exposição ao calor excessivo resultado da sorna matinal, não sei do que foi mas os meus pés começaram outra vez a doer, as plantas dos pés, o que nos fez abrandar e foi motivo de gozo dos aveirenses que depressa nos ultrapassaram.
É uma etapa com pouca sombra, com bastantes subidas e muito caminho pelo meio de vinhas. A certa altura entramos num café para comprar água, talvez o único por onde passamos nesse dia,  onde estavam duas peregrinas chinesas a carimbar as credenciais e eu aproveitei para carimbar as nossas também. Uma delas olha para a minha, topa o carimbo de um hotel e grita "oh, you been in a hotel? A hotel?" tão alarmada que, fosse o caso de eu não entender o inglês macarronico, ainda teria julgado que ela me estava a avisar que tinha uma víbora a descer-me pelo pescoço. Sim, um hotel, qual é o mal?
Também quase não há fontes neste percurso. E estava tudo tão seco! Todos os ribeiros e riachos, tudo seco. Verdade seja dita que de resto estava tudo absolutamente impecável: água fresca nas garrafas, paisagem bonita, mochila super, bolhas zero, chapéu cinco estrelas, mãos magrinhas. Tudo menos os meus pés. Oh os meus pés, a dor excruciante de caminhar sobre facas, caramba.
Perto de Caldas de Reis vimos um cartaz a anunciar o Albergue Cruzeiro e recordamos que o Miguel, o nosso monitor da Serra do Risco, nos tinha dito que ali teríamos de ficar no Cruzeiro, o albergue municipal é impróprio para consumo, diz ele, nós não sabemos. Agarro no telefone e, fazendo o melhor uso daquele idioma universal que é o portunhol, marco um quarto. Era para quatro pessoas, mas não fazia mal, custava 12€ a cada uma e sempre seria melhor partilhar o espaço com outros 2 que com outros 22.
Lá chegamos, eu de rastos, a Inês fresca como se em vez de 23 quilómetros tivesse caminhado 23 passos (mais uma vez ludibriadas pela internet). Por mero acaso fomos direitas às águas, o sítio onde a tradição manda mergulhar os pézinhos à chegada, mas a simples visão de vários pares de extremidades transpiradas, e quiça micóticas, a demolhar no mesmo tanque fez-nos quase correr para o albergue onde a ausência dos nossos companheiros nos permitiu uma belíssima e bem mais higiénica banhoca.
Pouco depois eles chegaram, a Donatella e o Enrico, um casal de pequenos sexagenários italianos que pareciam dopados. Nós deitadas nas nossas camas, de pernas para o ar, vaselina a absorver nos pés, sem energia nem para alongar as pálpebras e eles, mais ela na verdade, num frenesim: lavou roupa, estendeu-a, desmancharam mochilas, fizeram camas, tomaram um duche e desandaram porta fora. Já nós só saímos um bom bocado depois. Arrastámos-nos pelo passeio, fomos ao supermercado e acabamos abancadas primeiro numa esplanada onde bebemos umas cervejas bem fresquinhas com o Jeremiah, que entretanto apareceu ali sozinho com o seu belo sorriso e um calcanhar todo deitado abaixo, e a seguir, de novo sozinhas, num tasco de aspecto duvidoso mas bastante pitoresco onde comemos umas muito boas tapas acompanhadas de mais umas cañas. 
As mesas corridas facilitam este tipo de interacção e acabamos a partilhar a nossa com um grupo de cinco divertidos alentejanos de Torres Novas - três rapazes e duas raparigas. Vinham de Valença, como nós - aleluia! já começávamos a achar que ninguém partia de tão perto de Santiago como nós. 
Regressamos ao nosso albergue um bocadinho às pressas com receio de acordarmos os nossos parceiros idosos apenas para constatar que eles ainda não tinham chegado. E já o fizeram uma boa meia hora depois de nós, os doidos. Conversamos ainda durante um bocado mas a noitada não os impediu de se levantarem ao toque do nosso despertador, às 5.30 da manhã (já não íamos arriscar outra caminhada à torreira do sol, somos parvas ou quê?) frescos e enérgicos como no dia anterior. 
o Caminho e os amigos italianos


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Indo eu, indo eu a Caminho de...Santiago #16 - Etapa 2- Porriño-Pontevedra

Outra parte chata de dormir em albergues é a partida no dia seguinte - isto para quem queira, como nós, sair bem antes do nascer do dia. Acordar às 5.30 da matina já não é a melhor sensação da vida, acordar às 5.30h da matina depois de ter dormido ao todo uns 45 minutos, ainda é pior. Acordar às 5.30h da matina, deparar com 20 pessoas a dormir, ter por isso de sair sorrateiramente da camarata, às escuras, com a tralha toda atrás, para nos vestirmos no corredor, é uma trampa que não dá jeito nenhum.
Antes de partirmos para a nossa etapa de 20km rumo a Arcade,  paramos num café para carimbar a credencial, tomar  o pequeno almoço e ver se acordávamos antes de nos fazermos à estrada. Quando íamos a sair entrou um rapaz, peregrino, que nos sorriu com tanta simpatia e disse um good morning tão entusiástico que nos deu energia para as primeiras horas. 
Caminhar de noite não é tão giro como caminhar de dia, mas com as temperaturas a galope por aí acima, é infinitamente mais fresco e rápido. Os bastões são uma ajuda preciosa, evitam o inchaço das mãos e aceleram bastante a passada. 
Ao fim de uma hora de caminhada em que quase não vimos ninguém, fomos apanhadas pelo rapaz do sorriso simpático, que nos acompanhou durante o resto do dia. O Jakub (Jacob) era um polaco de 32 anos, magrito, cabelo loiro cortado à moda do colégio inglês e vinha a caminhar desde Lisboa, de tenda às costas, de onde tinha partido no dia 17 de setembro. Contou-nos que estudou Relações Internacionais em Cracóvia, depois foi completar os Estudos para França, onde viveu durante um ano. Regressado à Polónia abriu uma empresa de publicidade que lhe permitia trabalhar 9 a 10 meses no ano e viajar nos restantes. Confessou-se absolutamente apaixonado por Portugal e pelos portugueses e na Primavera pretende regressar para fazer a Rota Vicentina. Apesar das fortes motivações religiosas, o Jakub tinha o objectivo, que atingiu, de perder 5kg no Caminho. 
Cerca de 15 km depois de partirmos, à chegada a uma terriola chamada Redondela onde paramos para beber um café, comer o bolinho que oferecem sempre aos peregrinos e carimbar a credencial, fomos adoptados por mais um peregrino. Este era um alemão negro, alto, elegantemente atlético com o sorriso mais franco, simpático, saudável e bonito que eu já vi. Chamava-se Jeremiah, o que foi motivo de risota, quer dizer, Jacob e Jeremias? Qual era a probabilidade? 
O Jeremiah contou-nos que aos 27 anos ainda era estudante de medicina porque descobriu tarde  o que queria fazer na vida. Pretende especializar-se em anestesiologia, sonha encontrar uma mulher com quem construir uma vida, nunca tinha andado de avião, aliás, nunca tinha saído da terra dele - uma cidadezinha perto de Frankfurt - e, tal como o Jakub, nunca tinha visto o Oceano antes. Por ter partido do Porto e vindo pelo Caminho da Costa, como o Jakub, a descrição deles do espanto que foi essa primeira visão fez-me desejar muito ter assistido. 
Conversar enquanto se caminha alivia as distâncias. Perto de Arcade concluímos que nos sentíamos espectaculares e decidimos juntar duas etapas numa e seguir para Pontevedra. 
Oh, triste ideia.

Numa das várias paragens que fizemos a partir daí, a sensação que dá é que cada quilómetro se transforma em cinco, passou por nós um senhor já de idade, irritantemente fresco e energético. Meteu conversa connosco e ficamos a saber que era lituano, 75 anos, casado, duas filhas (uma delas a viver nos EUA) e três netos. Tal como o Jakub partira de Lisboa mas quatro dias antes dele.

O Caminho foi-se fazendo, quanto mais calor estava mais difícil. Estavámos mentalmente preparadas para fazer uns 35 km, que acabaram por ser 38, sendo que os últimos 8 ou 10 foram de grande sofrimento para mim, com dores intensas na planta dos pés. A Inês parece que nasceu a andar a pé, estava na maior, mas eu não, fui caminhando cada vez mais devagar e mesmo assim cheguei a Pontevedra com vontade de arrancar os pés, para dizer o mínimo, e em desespero total por uma casa de banho. 
Quando se chega a uma localidade ao fim da tarde, os albergues e sítios baratos já estão todos ocupados. Foi aqui que nos separamos dos nossos amigos - o Jakub seguiu por mais uns quilómetros em busca de um lugar onde pudesse instalar a tenda e o Jeremiah arranjou uma cama num albergue. Nós seguimos para um hotel e pronto. Um hotel com quarto, cama, casa de banho privada, banheira... que saudades!
Nessa noite ainda conseguimos encontrar um restaurante italiano que tinha uma boa sopa de legumes e dormimos que nem umas santas.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Indo eu, indo eu a Caminho de...Santiago #15 - Etapa 1- Valença-Porriño

Partimos da Gare do Oriente no dia 2 de Outubro ao fim da tarde, no Alfa Pendular, rumo à Campanhã e transbordamos para o IR até Valença do Minho onde chegamos já perto das 11 da noite.

O Balerdi B&B revelou-se uma bela surpresa. O dono, espanhol, estava à nossa espera com um quarto impecavelmente limpo, e foi muito querido porque, quando lhe explicamos que teríamos de deixar a noite paga e prescindir do pequeno almoço porque teríamos de sair por volta das 6.30 da manhã, ele ofereceu-se logo para nos preparar a refeição às 6h e ainda se lembrou de nos carimbar a Credencial do Peregrino, coisa que a nós nem nos tinha passado pela cabeça.

Antes da partida, preocupadas com as bolhas fizemos o que dizem os manuais - protegemos os pés. Com o quê? A internet é prolixa no que diz respeito a este assunto. Há quem use vaselina ou o stick anti - fricção da Compeed (que nós também levamos para o caso). Mais tarde descobrimos que o Biafine também é uma opção muito apreciada. Mas isto de ter um marido ciclista tem as suas vantagens e decidimos inovar com o creme que os ciclistas usam para proteger o rabo das assaduras.
O Balerdi B&B fica mesmo junto do Caminho, o que facilitou ali no arranque, às 6.30 ainda é noite cerrada - as lanternas revelaram-se uma excelente aposta, a luz do telemóvel não é, nem de perto nem de longe, suficiente. Caminhamos durante cerca de duas horas. Em Tui o Caminho tem ali umas partes em que não está assim tão bem sinalizado, o que resultou num desvio de cerca de 2 km, mas lá nos orientamos e seguimos até à primeira paragem para comer e descansar. Tínhamos trazido de Lisboa alguma fruta para o início e umas deliciosas barritas home made, feitas pela grande Chef Cátia Goarmon, que já nos tinham sido preciosas na véspera ao jantar e nos ajudaram muito em todos os outros dias. Não estava ainda muito calor mas já tínhamos bebido alguma água e aí tivemos a primeira surpresa peregrina - junto da fonte onde fomos reabastecer havia uma taça com maçãs. Percebemos depois que é frequente haver fruta para os peregrinos junto das fontes. 
Esta parte do Caminho foi uma desilusão em termos estéticos e olfativos. Anda-se muito por estradas feiosas  (a arquitectura daquela zona não é propriamente bonita), ruidosas e poluídas. A segunda parte é melhor, há mais caminhos de serra, mas para evitar assentar os pézinhos nos inúmeros montes de bosta de cavalo, tivemos de caminhar um bom bocado como elefantes a atravessar o rio, de nenúfar em nenúfar.
Chegamos a Porriño 5 horas e 25 km depois da partida, muito cansadas mas sem dores nem mazelas, direitinhas ao albergue municipal. 
Para se ficar nos albergues municipais é obrigatório ter a Credencial do Peregrino. Não sei se já falei nisto, mas a Credencial pede-se por correio ou, no nosso caso, na Sé de Lisboa e custa 2€. Esta Credencial serve para nos dar acesso aos albergues e, quando carimbada em 2 locais por dia, se cumprirmos um mínimo de 100km a pé ou 200km de bicicleta, ainda nos dá direito à Compostela, o certificado que nos dão na Catedral de Santiago. 
O Albergue paga-se à entrada. Custa 6€ e dão-nos um kit de lençol e fronha descartáveis. Tem duas camaratas com beliches, tudo limpo e arejado, mas, por muito boa vontade que tenhamos e apesar de termos desmaiado ali durante um bocado antes do jantar,  é difícil descansar numa camarata cheia de gente. 
A casa de banho e os balneários estavam bem limpos, existe uma cozinha, para quem leva o equipamento necessário e vai numa de cozinhar as suas refeições, e ainda há uma muito útil zona de lavandaria com estendal.
Uma nota: entre as 16h e as 20h está rigorosamente tudo fechado, não se consegue comer nada em parte nenhuma. A partir dessa hora, os restaurantes estão a abarrotar de gente, é complicado arranjar mesa e impossível comer uma sopa (e nós queríamos tanto uma sopinha!). Como o recolher no albergue é às 22h fica tudo um bocado a correr.
O descanso é fundamental, por isso não ficamos fãs deste modelo de pernoita. 



terça-feira, 17 de outubro de 2017

Indo eu, indo eu a Caminho de... Santiago #13 - A mochila

Um detalhe que andava a tirar-me o sono era a inexistência de uma mochila decente nesta casa. Ora sendo esta uma peça fundamental para o sucesso da nossa aventura, e já que teria de adquirir uma, havia que escolhê-la com critério e minúcia.
O peso é fundamental, já sabemos, mas o preço não pode ser ignorado. Nem o conforto.
Portanto, num destes domingos, lá fomos nós passear aos estabelecimentos comerciais do género. Mas claro que nunca sem antes fazer o meu costumeiro périplo por esta Internet fora, no qual visitei todos os blogues e sites cujo assunto contivesse as palavras Trekking, Hiking, Caminho de Santiago, Acampamento e Actividades Ao Ar Livre.

Descobri que, para uma caminhada de uma semana, a mochila deve ter uma capacidade máxima de entre 30L a 40L. No geral é isto que os veteranos defendem. Uma mochila com capacidade para meter lá dentro este mundo e o outro, acho. Mas eu ia determinada a carregar com o  mínimo peso possível, tenho muito pouco sangue de mula a correr-me nas veias e na hora de acartar não ando cá com frescuras - é levar o mínimo e pronto. Por isso fui direitinha às mochilas de 30L.
Experimentei várias e descobri uma de que gostei. Era confortável, costas rígidas e arejadas, fecho para a fixar na cintura e no peito, várias bolsas e bolsinhas, suporte para os polegares, alças moles, capa impermeável, tudo o que os sites mandavam acautelar. E custava 27€. Fiquei muito contente. Preparava-me para me ir embora com a minha nova aquisição quando o meu querido e amado cônjuge apareceu com uma mochila igualzinha, mas de 20L. Comecei por reclamar, seria demasiado pequena, tão pequena que nem o saco cama caberia lá dentro. Ele voltou atrás e regressou com outro saco cama - uma coisa espectacular - um saquinho muito mais pequeno do que o outro, com um peso 200gr inferior e um preço de apenas mais 10€. Pensei um bocadinho. Olhei para o preço da mochila mais pequena, custava menos 5€ que a outra, portanto o saco cama, na realidade, custaria apenas mais 5€. E nós iríamos muito mais leves (sim, nós, porque estamos tipo pirosas a comprar quase tudo igual). Nunca esquecer, a regra de ouro: o foco é sempre o peso.

E pronto. Venha a mochila e venha o saco cama. Foi por este motivo que acabei por não levar o outro.
Deixo aqui a fotografia da mochila e um comparativo entre os dois sacos-cama para se ver bem a diferença.
(Mais tarde voltei lá para devolver o preto).
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