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quarta-feira, 31 de maio de 2017

A propósito do Dia dos Irmãos (que eu nem sei se sempre é hoje)

Como gosto de rimas, aqui ficam umas para os meus manos neste dia dos irmãos (seja ele qual for, porque há tantos que eu não sei qual é que vale)

Há muito tempo éramos 4
Numa casinha em Cascais
4 pernas da mesma mesa
4 elementos da natureza
4 pontos cardeais

Fomos os primeiros inimigos
Mas vivemos como um gangue
4 Beatles à estalada
4 Fantásticos à gargalhada
4 partes do mesmo sangue.

Foram muitas aventuras
e mais foram as confusões
Uma cruz de 4 pontas
Em matemática as 4 contas
Somos as 4 estações

O passado fez-nos quem somos
O Futuro está na nossa mão
Somos um baralho de 4 naipes
4 Ninjas cheios de vaipes
As 4 câmaras do coração

Entretanto passamos a 7,
Irmãos nunca são demais
7 dias, 7 cores
7 anões trabalhadores
7 notas musicais

Somos sempre espectaculares
Mesmo quando afiamos os dentes
Somos 7 maravilhas
7 é o número das manilhas
Até já são 7 os continentes

Somos mais fortes todos juntos
Uma família da modernidade
7 virtudes, 7 pecados
7 mares agitados
7 colinas numa cidade








sexta-feira, 28 de abril de 2017

Alguém que me explique por favor #1 - Detergente Surf

Uma coisa que sempre me irritou foi a publicidade aos produtos para o lar e para a família usarem sempre o mesmo conceito de: mulher = dona de casa competente = cozinheira do caraças = mãe extremosa.
Como se:
a) as mulheres fossem todas assim e todas iguais
b) os homens não existissem dentro de casa.
Entretanto este tipo de comunicação ficou completamente datado e começamos a ver umas coisas mais modernaças e arrojadas, tipo uns anúncios da Knorr em que é o protagonista é um Chef famoso e tal.
Mas, como esta malta corre veloz, eis que dou de caras com isto:



Confesso que fiquei baralhada. Não sei, talvez seja eu que sou meio burra, mas a visão do rapaz-strip-dancer-ex-jogador-do-estrela-da-amadora-com olhar-de-galã-dos-olivais em tronco nu ao lado da embalagem de Surf, eu cá não sei, mas a mim não me atinge nem de raspão.
Querem o quê, que eu vá a correr comprar Surf porque me pode calhar um destes dentro do frasco? A roupa lavada com Surf faz o meu homem ficar com este aspecto? É suposto eu desejar isto?
Ah, espera, já sei! Isto é a nouvelle vague da publicidade, daaah, os detergentes estão a comunicar para os homens, que parva!
Então, se comprares este detergente a tua miúda passa a olhar para ti como se fosses este gajo? Não precisas de ir mais ao ginásio porque lavar a roupa com Surf dá-te este corpinho?
Se és Homem fazes as tarefas domésticas, compras Surf e orgulhas-te?
Bem, se é essa a ideia deixem-me dizer que tenho uma muuuuuito melhor. Eis o guião:

"Vemos um quarentão pintoso entrar em casa com os dois filhos pequenos depois de um dia de trabalho. Mesmo antes de despir o casaco, ele dirige-se à cozinha, pega no cesto da roupa suja, despeja-o na bancada e começa a ver as peças uma por uma. Separa a roupa branca da de cor e, após uns segundos de ponderação, decide fazer a máquina de brancos.
Tira uma nódoa de gordura de uma toalha com detergente da loiça, esfrega uma outra mancha numa blusa com SuperGel e borrifa umas cuecas com spray de pré-lavagem. Mete a roupa dentro da máquina, despeja o maravilhoso Surf no depósito, e liga-a. Começa a fazer o jantar.
Vamos alguns planos rápidos dele a ligar o micro ondas no "descongelar", a picar uma cebola, a regar o fundo de uma panela com azeite, a largar um foda-se quando a gordura lhe salpica a gravata. Vemos o arroz de frango no forno enquanto ele dá banho aos miúdos. Mais uma série de planos dele a secar-lhes o cabelo, a vesti-los, a lutar com eles para calçarem as meias, a correr para a cozinha, a tirar o arroz do forno e a por a mesa.
Vemos a mulher entrar em casa, estourada, e sentar-se no sofá. Ele chama para a mesa, mas ela não vai logo porque está a ver uma coisa no telemóvel. Vemos que ele chama de novo e ela lá se arrasta, descalça, sem tirar os olhos do telemóvel. Durante o jantar falam pouco, ela ignora as crianças - deve ter trabalho para fazer porque continua agarrada ao aparelho. Depois do jantar ela abanca a ver o Benfica. Ele vai estender a roupa. Ela vibra com cada oportunidade de golo e ele, enquanto arruma a cozinha, consegue perceber o que vai acontecendo pelos gritos de alegria ou fúria que escuta. Ela envia-lhe um sms cheio de emojis queridos a pedir para, quando ele puder, lhe levar uma cerveja. Ele acaba de preparar os almoços para o dia seguinte, pega na cerveja e vai ter com ela à sala. Quando olha para o televisor o jogo já terminou e ela está a ressonar no sofá".

Isto é que era um anúncio, qual rapazinho de tronco nu. Deixem-se de tretas!





quarta-feira, 12 de abril de 2017

Recicla tu!

Ok, pronto. Quer dizer, a pessoa vê as notícias e pensa nas coisas e claro que se sente na obrigação de agir. Confesso, não sem algum pesar, que nesta família não possuímos nem fábricas nem plataformas petrolíferas nem jactos privados, de maneira que a pior coisinha que aqui fazemos é mesmo deitar o óleo de fritar pelo cano do lava loiças, mas ainda assim decidimos ir mais longe e agir como pessoas verdadeiramente evoluídas: começamos a reciclar o lixo.
Afinal dizem que é fácil, barato e bom para o Planeta, não pode ser assim tão complicado.

Tomada a decisão, o primeiro passo é adquirir uns caixotes daqueles às cores. Ora, assim de repente precisamos de um para cartão e papel, outro para vidro, outro para embalagens de plástico e metal, outro para pilhas, outro para pequenos domésticos e carregadores e essas coisas, outro para as tampinhas de plástico, outro para as lâmpadas, outro para os medicamentos fora de prazo e outro para o óleo de fritar. Isto se não andarmos a separar cápsulas de café ou o interior dos rolos de papel higiénico ou frascos de compota para um trabalho qualquer da escola dos miúdos, caso contrário teremos de acondicionar mais umas caixas e caixinhas sobre as pilhas periclitantes de manuais escolares que havemos de enviar para uma escola em Timor, que estarão encostadas aos caixotes com roupas das crianças que deixaram de servir e havemos de entregar na paróquia local.
Vai-se a procurar nos supermercados e somos logo confrontados com a triste realidade: os caixotes para reciclagem são fabricados por agentes imobiliários: ou são ridiculamente diminutos e inúteis, com capacidade para acomodar tipo dois pacotes de leite, ou são gigantescos ao ponto de termos de tirar dois armários mais a máquina da loiça só para encaixar o amarelo, o que nos obriga a mudar de casa rumo a um novo e luxuoso apartamento com assoalhadas suficientes para acomodar o lixo, além de uma boa garagem para acomodar a família.

Com os novos caixotes verdes, amarelos, azuis, cinzentos e castanhos bem arrumadinhos na nossa casa nova. há que aprender o básico. É que reciclar é mesmo para espertos, não se julgue que é só separar o lixo e agora vai lá à tua vida. Reciclar é uma actividade tão evoluída que temos de aprender a fazê-lo.
Separar o lixo é uma ciência que exige estudo, método e concentração por parte de todos os elementos do agregado. Por exemplo, um pequeno almoço de leite e cereais: dantes servíamos a taça, o leite e os cereais acabavam, nós abríamos o caixote do lixo e atiravamos para lá as embalagens vazias. Agora, os cereais acabam, nós devemos retirar o saquinho de plástico que vem lá dentro, sacudi-lo no caixote do lixo e coloca-lo sobre a bancada. De seguida, devemos espalmar a embalagem de cartão bem espalmadinha, por causa do espaço, e coloca-la junto do saquinho de plástico. O pacote de leite deve ser passado por agua, por causa do mau cheiro, e também espalmado com deferência e cuidado. Só então estaremos prontos para calçar os patins, atravessar a mansão rumo à ala da reciclagem, deitar o saquinho de plástico e o pacote de leite no caixote amarelo e a caixa de cartão no azul.
No caixote azul podemos também depositar jornais, papéis correntes e cartões vários, mas lenços de papel, papel higiénico, papéis plastificados ou autocolantes e qualquer papel que tenha servido para acondicionar comida, nem pensar.
Já os vidros devem ser colocados no seu ponto de recolha específico, mas as tampas de frascos e garrafas devem ser removidas e colocadas no ponto amarelo.
Uma nota: uma vez que a separação do lixo nos pontos de triagem é feita à mão, por pessoas, é simpático exaguarmos os vidros e restantes embalagens antes de as deitarmos no caixote, portanto, toca a poupar nos jantares fora que a conta da água vai disparar. No entanto atenção: copos, loiças de casa, cerâmicas, espelhos e outros vidros não são recicláveis, pelo que devem ser depositados no lixo corrente.
O caixote amarelo aceita latas, sprays, embalagens feitas de misturas de materiais (como os pacotes de leite), tabuleiros de esferovite ou alumínio, frascos de shampoo, detergentes, etc. Contudo, plásticos de brinquedos, cabides, embalagens que tenham servido a pesticidas ou produtos tóxicos, talheres de plástico ou outros objectos em plástico ou metal não.
Aprendeu?
Pois, cá em casa também não.

Uma vez que a aprendizagem é morosa (pode levar anos), tem de se nomear um elemento da família para desempenhar a ingrata e penosa tarefa de ser o polícia do caixote do lixo.
As funções deste elemento consistem em vigiar com olhos de falcão os vários recipientes, por forma a garantir que não há pacotes de leite no cartão, que as embalagens estão todas lavadas, que não há tampas no recipiente do vidro, que não há guardanapos no caixote do papel... enfim.
Mas há. Há sempre. Sem-pre.  E nunca foi ninguém. A consequência natural, uma vez que o cão não separa o lixo e julgo que o lixo não se baralha sozinho, é o nosso quotidiano familiar tranquilo ser substituído por um outro mais dado à gritaria, à delação e ao pugilato.

Separado o lixo, tem de ser despejado nos pontos de recolha.

Reciclar é civilizado, mas nuns países cheira-me que é mais civilizado que noutros. A partir do momento em que decidimos reciclar o nosso lixo, aprendemos que em Portugal não há recolha de reciclaveis porta a porta (pelo menos no meu Portugal não há). De maneira que o lixo passa a ser como mais uma meia dúzia de passageiros que temos de transportar no nosso automóvel para deixar no ecoponto a caminho da escola ou, se nos esquecermos, no caminho para o trabalho ou, se nos esquecermos, no caminho de regresso a casa ou, se nos esquecermos, no dia seguinte. O dito automóvel passa a andar sempre tão nauseabundo e cheio de lixo que mais vale juntarmos à casa nova um carrão a condizer, com imensos lugares e bagageiras e tecto de abrir, ou, a bem da saúde dos pequenos, teremos de começar a levar as crianças para a escola dentro daquelas malas cinzentas amarradas ao tejadilho do carro.

Já estamos dentro da viatura, mais as  crianças e o lixo e tudo, toca a ir em busca de um ecoponto. Os ecopontos não são assim tantos e estão quase sempre estrategicamente colocados em cima de qualquer coisa proibida: uma passadeira, uma paragem de autocarros ou uma curva, portanto, parar para descarregar é uma actividade arriscada e muitas vezes ilegal, tipo train surfing para totós (já agora convém juntar às despesas um seguro como deve ser).
Entre voltas e voltinhas, e após atestarmos o depósito duas vezes, quando por fim conseguimos parar o carro sem sermos abalroados ou multados, convém rezar para que o ecoponto:
a) não esteja a rebentar pelas costuras;
b) seja um daqueles com tampa porque os sacos nunca cabem naquelas ranhuras minúsculas e nós  ficamos com as mãos e os braços a escorrer nhanha e enlouquecemos de fúria e deixamos o lixo todo no chão e vamos embora sem peso na consciência.

No final do complexo procedimento, estamos ainda a preparar-nos para a inversão de marcha, quando chega o camião de recolha do lixo e, um por um, despeja os ecopontos todos lá para dentro.
Realmente reciclar é mesmo fácil, barato e, acima de tudo, civilizado.