Não há pachorra para as fotografias dos outros

Um dos bons hábitos que felizmente se perdeu foi o de ir a casa dos amigos para ver fotografias. A sério, aquilo era intolerável. Podiam ser as do casamento em Sintra, da lua de mel na Tailândia, do baptizado do pequeno Duarte ou dos quadros todos do Museu do Prado, era indiferente, todos fugíamos a sete pés das sessões intermináveis de fotografias acompanhadas de relatos detalhados das peripécias vividas no Natal de 1987 em casa da Avó Rita. Todavia, se é verdade que nos queixávamos quando nos convidavam (e uma vez ou outra até fomos nós a convidar), também é verdade que secretamente procurávamos os retratos em que  nós próprios aparecíamos para criticarmos logo com imenso género, ai que horror estava péssima, parecia um pote! ao que alguém respondia, estavas nada, estavas o máximo, quem me dera! Em eventos onde não tivéssemos participado não havia essa hipótese, logo, o estímulo para vermos as imagens diminuía ainda mais e então a cenoura passava a ser avaliar se afinal a Sandra de fato de banho era tão magra como parecia ou se o Paulo ia para a praia de sapatos de vela e panamá do Turismo de Portugal.
Satisfeita a pequena curiosidade, lá fazíamos o frete de ver mais algumas fotos enquanto nos embebedávamos à pressa para termos uma desculpa para disparatar e acabar com aquilo porque, na verdade, nos estávamos a cagar. Quer dizer, no fundo, até os próprios reconheciam que passar horas a desfolhar imagens de praias paradisíacas com vietnamitas sorridentes, ou do concerto da Madonna em que ficaram mesmo lá à frente era, no mínimo, exigente. Exigente ao nível da paciência e exigente ao nível do vocabulário. É que às tantas esgotavam-se-nos as exclamações de agrado forçado, já não havia mais alternativas para uau!, que giros!, que máximo!, espectáculo!, isto é o paraíso!, estás igual à tua mãe!, que inveja!, que maravilha!, que beleza!. 

Por outro lado, em pequenos ensinaram-nos que ter inveja era mau e provocar inveja ainda era pior. No geral, havia como que um certo pudor que estava relacionado com padrões de educação.
Aliás, essa espécie de pudor existia relativamente a uma data de outras coisas, todas relacionadas com o exibicionismo: ninguém gostava dos convencidos, dos que se gabavam do carrão desportivo, da bombástica namorada nova, da nota espectacular do exame de Matemática. 
Para nos gabarmos sem sermos gozados até à náusea, tínhamos de o fazer com muito jeitinho e apenas dentro de um grupo muito restrito de amigos, e mesmo assim, nem sempre tínhamos sorte.
Ora, também isto era um pau de dois bicos. Se, por um lado, às vezes nos sentíamos orgulhosos e queríamos exibir os motivos desse orgulho, por outro, também sabíamos como nos sentíamos quando os outros se exibiam para cima de nós, de maneira que evitavamos ser demasiado chatos.


Mas depois apareceram as redes sociais. Um belo dia o pudor foi-se, com ele foi-se o receio de se ser aborrecido, e tudo passou a ser exibível e partilhavel. Mas tudo mesmo.
De repente passamos de não ter pachorra para ver o álbum de férias dos nossos melhores amigos para a absorção ávida e diária de fotografias e textos que ilustram (ou gostavam de ilustrar), a vida de pessoas que mal conhecemos. 
Por exemplo, hoje eu sei que a minha ex-colega de carteira da escola primária, que vive em Roterdão, celebrou o 25 de Abril a comer uma caldeirada de peixe com uns amigos holandeses, sentados a uma mesa com uma toalha medonha e um talher de cada nação. Também descobri que a mulher do meu chefe fez uma tatuagem de uma malagueta na virilha esquerda e queria que ele também tivesse feito mas ele teve medo, e que a minha amiga Laura, que passa a vida a chorar porque o marido é um cretino, publica fotografias dos dois na cama para fazer ciúmes à ex-mulher dele. Também fiquei a saber que toda a gente passou a Páscoa na neve (se fosse eu obrigava a RayBan a pagar por tanta publicidade) e que com a dieta da Pronokal vou conseguir emagrecer completamente porque são óptimos e não nos largam e não nos deixam desistir.
Hoje, conheço de cor as preferências clubísticas de todos os meus "amigos", o que comem ao pequeno-almoço e a posição que cada um tem sobre o tema daquele dia, seja as vacinas, o Trump ou o penalti que o arbitro não assinalou ao Benfica mas toda a gente viu. Não raras vezes dou por mim a dar os parabéns ao pai de alguém que mal conheço e os pêsames a pessoas que falam com os seus falecidos através de mensagens colocadas no seu mural.
Há uns tempos eu já nem me lembrava da maior parte dos meus "amigos", hoje sei que os filhos deles são criaturas extraordinárias, perfeitas, atléticas, caridosas, intelectualmente sobredotadas e sem acne - é chato, porque os meus não passam se seres humanos com imensos defeitos, algumas qualidades e umas quantas borbulhas. Há uns anos eu considerava natural ter um emprego normal com dias bons e outros assim assim, hoje sei que sou uma desafortunada porque entre os meus "amigos" há vários abençoados com o melhor emprego do mundo, ou com a melhor chefe do mundo ou com a melhor língua para lamber cus do mundo

É claro que isto só acontece porque eu deixo. Porque, de repente, a anteriormente desinteressante vida dos outros passou a interessar-me, porque descobri prazer num certo voyeurismo, porque sociologicamente me intriga o nível de exposição a que as pessoas se entregam, ou porque não tenho nada mais útil onde gastar o meu tempo. 
Mas, se eu quiser ignoro. Está nas minhas mãos ver o que quero, quando quero e apenas se quiser. Posso ser daquelas para quem aqueles mais activos dirigem bocas do género "olá para ti, que andas aqui a ver mas não dizes nada". Se eu quiser posso ser uma mirone. Posso ver e ignorar. Ver, formar o meu juízo de valor (sempre muito útil) e ignorar. Ver, comentar ao telefone com as minhas amigas, e ignorar. Não há nenhuma lei que me obrigue a participar activamente, por isso faço como bem entender.

Mas essas pessoas que gostam que os outros saibam tudo e pensem sobre as vidas delas também querem que os outros opinem, que gostem, enfim, eu acho que procuram protagonismo, mas mais que isso, pretendem mesmo causar aquela inveja feia nos outros. Vivem para isso. Contam os comentários, os likes, as partilhas e acham-se muito mais influentes que os comuns mortais. Acontece que, quando libertas as tuas fotografias ou opiniões nas redes sociais, a menos que as pessoas coloquem lá os likes, não consegues ter a certeza de quem viu ou sequer se alguém viu, pode haver mais mirones como eu, por exemplo. Mas tu queres ter a certeza que viram, tens de ter a certeza. De outra forma para que serve teres ido ao ginásio? Para que comes tu quinoa? Para que foste tu gastar um dinheirão numa viagem à Australia? 

Então toca de entrar pelo Whatsapp dentro. Agora, se não querias passas a querer. Os nossos grupos privados do emprego, dos amigos, da ginástica, da dieta, todos estão a ser invadidos por exércitos de imagens de idas românticas a restaurantes finos, que não podemos ignorar porque os outros sabem quando as vemos e ficam ofendidos e chamam-nos invejosos se não respondemos com uma carrada de emojis a mostrar que eles são uns sortudos com uma vida maravilhosa e que morremos de inveja deles, mas inveja da boa, tá?
Pá, tudo bem, a pessoa tolera uma fotografia, três fotografias. Mas não se aguenta o descarregar das férias inteiras no grupo das amigas. Então se a mesma pessoa faz parte de três dos grupos os quais nós também fazemos parte, a coisa toma proporções de massacre. Não se aguenta nem é simpático, quer dizer, as pessoas estão a trabalhar, na maior parte das vezes com sacrifício e má vontade e os amigos que estão em Bali passam uma semana a injectar  imagens dos pézinhos entrelaçados na praia, da corrida que fizeram de mãos dadas no parque, do aborrecido que foi terem de beber um cocktail cor de fogo na esplanada com vista para o mar, do pôr do sol com as mãos em coração à volta e dos adoráveis filhos de costas à beira mar. directamente no nosso sistema nervoso. E nós a responder, imagem atrás de imagem, uau!, que giros!, que máximo!, espectáculo!, isto é o paraíso!, que bom!, que inveja!, que maravilha!, que beleza! quando temos é vontade de os mandar à merda.

A sério, desculpem lá mas não há pachorra. 
Ao menos dantes, com o album de fotografias da Primeira Comunhão, sempre vinha uma garrafita de vinho para animar a coisa.





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