Recicla tu!

Ok, pronto. Quer dizer, a pessoa vê as notícias e pensa nas coisas e claro que se sente na obrigação de agir. Confesso, não sem algum pesar, que nesta família não possuímos nem fábricas nem plataformas petrolíferas nem jactos privados, de maneira que a pior coisinha que aqui fazemos é mesmo deitar o óleo de fritar pelo cano do lava loiças, mas ainda assim decidimos ir mais longe e agir como pessoas verdadeiramente evoluídas: começamos a reciclar o lixo.
Afinal dizem que é fácil, barato e bom para o Planeta, não pode ser assim tão complicado.

Tomada a decisão, o primeiro passo é adquirir uns caixotes daqueles às cores. Ora, assim de repente precisamos de um para cartão e papel, outro para vidro, outro para embalagens de plástico e metal, outro para pilhas, outro para pequenos domésticos e carregadores e essas coisas, outro para as tampinhas de plástico, outro para as lâmpadas, outro para os medicamentos fora de prazo e outro para o óleo de fritar. Isto se não andarmos a separar cápsulas de café ou o interior dos rolos de papel higiénico ou frascos de compota para um trabalho qualquer da escola dos miúdos, caso contrário teremos de acondicionar mais umas caixas e caixinhas sobre as pilhas periclitantes de manuais escolares que havemos de enviar para uma escola em Timor, que estarão encostadas aos caixotes com roupas das crianças que deixaram de servir e havemos de entregar na paróquia local.
Vai-se a procurar nos supermercados e somos logo confrontados com a triste realidade: os caixotes para reciclagem são fabricados por agentes imobiliários: ou são ridiculamente diminutos e inúteis, com capacidade para acomodar tipo dois pacotes de leite, ou são gigantescos ao ponto de termos de tirar dois armários mais a máquina da loiça só para encaixar o amarelo, o que nos obriga a mudar de casa rumo a um novo e luxuoso apartamento com assoalhadas suficientes para acomodar o lixo, além de uma boa garagem para acomodar a família.

Com os novos caixotes verdes, amarelos, azuis, cinzentos e castanhos bem arrumadinhos na nossa casa nova. há que aprender o básico. É que reciclar é mesmo para espertos, não se julgue que é só separar o lixo e agora vai lá à tua vida. Reciclar é uma actividade tão evoluída que temos de aprender a fazê-lo.
Separar o lixo é uma ciência que exige estudo, método e concentração por parte de todos os elementos do agregado. Por exemplo, um pequeno almoço de leite e cereais: dantes servíamos a taça, o leite e os cereais acabavam, nós abríamos o caixote do lixo e atiravamos para lá as embalagens vazias. Agora, os cereais acabam, nós devemos retirar o saquinho de plástico que vem lá dentro, sacudi-lo no caixote do lixo e coloca-lo sobre a bancada. De seguida, devemos espalmar a embalagem de cartão bem espalmadinha, por causa do espaço, e coloca-la junto do saquinho de plástico. O pacote de leite deve ser passado por agua, por causa do mau cheiro, e também espalmado com deferência e cuidado. Só então estaremos prontos para calçar os patins, atravessar a mansão rumo à ala da reciclagem, deitar o saquinho de plástico e o pacote de leite no caixote amarelo e a caixa de cartão no azul.
No caixote azul podemos também depositar jornais, papéis correntes e cartões vários, mas lenços de papel, papel higiénico, papéis plastificados ou autocolantes e qualquer papel que tenha servido para acondicionar comida, nem pensar.
Já os vidros devem ser colocados no seu ponto de recolha específico, mas as tampas de frascos e garrafas devem ser removidas e colocadas no ponto amarelo.
Uma nota: uma vez que a separação do lixo nos pontos de triagem é feita à mão, por pessoas, é simpático exaguarmos os vidros e restantes embalagens antes de as deitarmos no caixote, portanto, toca a poupar nos jantares fora que a conta da água vai disparar. No entanto atenção: copos, loiças de casa, cerâmicas, espelhos e outros vidros não são recicláveis, pelo que devem ser depositados no lixo corrente.
O caixote amarelo aceita latas, sprays, embalagens feitas de misturas de materiais (como os pacotes de leite), tabuleiros de esferovite ou alumínio, frascos de shampoo, detergentes, etc. Contudo, plásticos de brinquedos, cabides, embalagens que tenham servido a pesticidas ou produtos tóxicos, talheres de plástico ou outros objectos em plástico ou metal não.
Aprendeu?
Pois, cá em casa também não.

Uma vez que a aprendizagem é morosa (pode levar anos), tem de se nomear um elemento da família para desempenhar a ingrata e penosa tarefa de ser o polícia do caixote do lixo.
As funções deste elemento consistem em vigiar com olhos de falcão os vários recipientes, por forma a garantir que não há pacotes de leite no cartão, que as embalagens estão todas lavadas, que não há tampas no recipiente do vidro, que não há guardanapos no caixote do papel... enfim.
Mas há. Há sempre. Sem-pre.  E nunca foi ninguém. A consequência natural, uma vez que o cão não separa o lixo e julgo que o lixo não se baralha sozinho, é o nosso quotidiano familiar tranquilo ser substituído por um outro mais dado à gritaria, à delação e ao pugilato.

Separado o lixo, tem de ser despejado nos pontos de recolha.

Reciclar é civilizado, mas nuns países cheira-me que é mais civilizado que noutros. A partir do momento em que decidimos reciclar o nosso lixo, aprendemos que em Portugal não há recolha de reciclaveis porta a porta (pelo menos no meu Portugal não há). De maneira que o lixo passa a ser como mais uma meia dúzia de passageiros que temos de transportar no nosso automóvel para deixar no ecoponto a caminho da escola ou, se nos esquecermos, no caminho para o trabalho ou, se nos esquecermos, no caminho de regresso a casa ou, se nos esquecermos, no dia seguinte. O dito automóvel passa a andar sempre tão nauseabundo e cheio de lixo que mais vale juntarmos à casa nova um carrão a condizer, com imensos lugares e bagageiras e tecto de abrir, ou, a bem da saúde dos pequenos, teremos de começar a levar as crianças para a escola dentro daquelas malas cinzentas amarradas ao tejadilho do carro.

Já estamos dentro da viatura, mais as  crianças e o lixo e tudo, toca a ir em busca de um ecoponto. Os ecopontos não são assim tantos e estão quase sempre estrategicamente colocados em cima de qualquer coisa proibida: uma passadeira, uma paragem de autocarros ou uma curva, portanto, parar para descarregar é uma actividade arriscada e muitas vezes ilegal, tipo train surfing para totós (já agora convém juntar às despesas um seguro como deve ser).
Entre voltas e voltinhas, e após atestarmos o depósito duas vezes, quando por fim conseguimos parar o carro sem sermos abalroados ou multados, convém rezar para que o ecoponto:
a) não esteja a rebentar pelas costuras;
b) seja um daqueles com tampa porque os sacos nunca cabem naquelas ranhuras minúsculas e nós  ficamos com as mãos e os braços a escorrer nhanha e enlouquecemos de fúria e deixamos o lixo todo no chão e vamos embora sem peso na consciência.

No final do complexo procedimento, estamos ainda a preparar-nos para a inversão de marcha, quando chega o camião de recolha do lixo e, um por um, despeja os ecopontos todos lá para dentro.
Realmente reciclar é mesmo fácil, barato e, acima de tudo, civilizado.




Comentários

  1. Tenho a sorte de, cerca de 50m acima do «meu» prédio, ter os contentores de reciclagem.Vejo-os da janela da cozinha, o que me dá também uma viste excelente do que fazem os comerciantes que existem nos prédios: caixas de cartão, plásticos de embalagem, vão todos para os contentores de lixo doméstico que há em frente de cada prédio. Até chego a sentir-me anormal por tentar reciclar tudo e mais alguma coisa!
    Mas, para chatear a recicladora cá da rua, o supermercado que há em frente à casa (tenho uma sorte do caraças!), fez obras de remodelação e eliminou TODOS os contentores que tinha na entrada! Já não posso lá deixar pilhas, lâmpadas, óleo usado...Meter essas tralhas no carro para ir a outro hiper só para ser muito cumpridora, não me está a apetecer, juro! Ando sempre a pé, vou gastar gasolina para reciclar? Acho que vou começar a fazer como os vizinhos: contentor geral tudo quanto não puder ir para os de reciclagem...

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