Mas qual é o problema das mulheres? (Um post em fascículos - Parte 1)

Aparentemente esta é a million dollar question, mas na verdade a resposta é bastante simples.

Como sou uma querida e gosto de prestar serviço publico, resolvi redigir um manual com algumas das situações em que os homens se queixam de não perceber qual é o problema das suas mulheres.
Claro que há sempre o risco da injustiça causada pela generalização - eu sei que não somos todos iguais. Mas no geral, somos bastante parecidos.

Vamos começar pelo principio - o namoro:

O namoro é a fase dourada de uma relação. O casal não vive na mesma casa e encontra-se quando quer e pode. Estão ambos vestidos e calçados (mas rapidamente deixam de estar) de dentes lavados e banho tomado. As necessidades fisiológicas são resolvidas no espaço de cada um, as refeições são feitas fora ou em casa de um deles, mas numa base facultativa. Não há filhos, não há contas conjuntas para pagar e há sexo. Muito sexo. Sexo bom e sexo frequente. Sexo só porque sim.
Se ele disse que telefonava e lhe gorou as expectativas a discussão resolve-se indo cada um para seu lado durante dois ou três dias se for preciso. 

Corre tudo tão bem que um dia o feliz casalinho decide casar.
Tratar de um casamento dá um trabalhão. É preciso pesquisar, comparar e seleccionar uma infinidade de merdas. A começar pela data e passando pelo orçamento, o local, as flores, a decoração, os brindes, as músicas, a lista de convidados, a roupa de cada um, as alianças, a distribuição dos convidados pelas mesas e terminando na lua de mel, tudo é motivo de discussão e todas elas terminam com um "a minha expectativa era que te envolvesses mais".

Depois de tanta confusão às vezes é um milagre ainda haver casamento, mas assumindo que há, nesta fase surgem novos ritmos, novas descobertas e novas responsabilidades. O casal começa a conhecer-se de uma forma diferente, mas as pequenas querelas são facilmente ultrapassadas porque há o mais importante - vontade. Existe sempre alguma fricção, mas nesta fase, geralmente, tudo se supera.
Ela gosta de cozinhar para ele e fica triste porque ele não colabora na arrumação da cozinha. Ela pede-lhe um lanchinho e fica desiludida porque ele lhe leva torradas e nunca reparou que ela não come pão. Ela corta o cabelo e zanga-se porque ele já não olha para ela como dantes.
Nada de grave, é tudo uma questão de gerir as expectativas.

E estão tão felizes que decidem ter o primeiro filho.
Ela está grávida desde o primeiro dia, ele demora a adaptar-se, às vezes nem se lembra. Ela tem sono, ele quer espairecer depois do dia de trabalho. O corpo dela muda, o dele não. Ela não pode beber, fumar, comer saladas fora de casa, sushi ou carne crua. Ele continua a ir tomar um copo com os amigos de vez em quando.
Ela fica desiludida, queria mimo tipo call center: 24/7. Estava na expectativa de viver uma gravidez partilhada com a mesma intensidade pelos dois.

Ela toma ferro, que faz prisão de ventre, toma anti ácidos porque tem azia, toma magnésio porque tem caimbras, faz dieta porque está quase com diabetes. Ele anda todo contente.
Ela fica triste porque ele continua a fazer a vida dele como se ela estivesse normal. Se fosse ao contrário, ela seria incapaz de lhe fazer isso a ele.

Ela não consegue dormir, não consegue estar acordada, não consegue andar, não consegue apertar os sapatos, nem sequer se consegue calçar. Mesmo que conseguisse, está tão inchada que os sapatos nem lhe servem. A roupa que veste está reduzida a três peças. Sente-se pesada, cansada e ansiosa.
Ele come o que lhe apetece e, se puder, dorme até ao meio dia.
A expectativa era que ele a compreendesse, mas ele não compreende e ela chora.

A hora aproxima-se, há que fazer o ninho. Ele ainda não está bem mentalizado. Ela chama-lhe a atenção, é preciso tratar de algumas coisas - carrinho, mantas, biberões, esterilizadores, soutiens de amamentação, fraldas, roupinhas separadas em saquinhos com etiquetas: Babygrow ou cueiro? Body de manga curta ou comprida? Fraldas bordadas a amarelo não é foleiro?  Qual a melhor máquina para tirar o leite? Ele acompanha-a na escolha de algumas, mas vai desinteressado, contrariado e não tem pachorra.
Ela amua e acaba por decidir ir com a mãe, que também conduz mas não reclama.
Sinceramente, estava à espera que ele se envolvesse mais!

Nesta fase acontecem algumas discussões porque o quarto tem de ser pintado e o berço tem de ser montado, mas ele sabe que têm tempo, não vê a urgência. Ela anda angustiada porque tem medo de ter a criança e não estar pronta para a receber. Ele não entende o stress, não há nada que não se possa resolver depois do bebé nascer. Ela discorda. Pó é incompatível com um recém-nascido. Tintas são incompatíveis com um recém- nascido. A vida é incompatível com um recém-nascido, percebes? Não, ele não percebe.
Ela sente-se tão desamparada, não estava nada a contar com isto. Esperava que ele fizesse como o marido da Joana que um belo dia, enquanto ela estava a trabalhar fez a mudança de casa deles sozinho.
Ele irrita-se, já nem a pode ouvir.
Num sábado em que ele vai à pesca, com a ajuda de uma amiga, ela resolve pintar o quarto da criança e montar o berço. Ele chega a casa de rastos, atira-se para o sofá e decide que vão jantar fora. Ela não quer ir, está cansada, tem contracções e justifica-o mostrando-lhe o trabalho que teve e como está bonito.
A expectativa e que ele lhe dê um abraço, que a repreenda carinhosamente, valorize o seu esforço, elogie o resultado e vá fazer o jantar. O que ele faz é amuar porque ela está grávida e não devia cansar-se e só fez aquilo porque tem a mania de querer tudo à maneira dela e se ele disse que ia fazer, é porque ia fazer.

Portanto, já perceberam qual é o nosso problema?
Exacto, as expectativas. Sempre as cabras das expectativas.

Comentários

  1. É a lição de vida mais dura de aprender. E quem espera, nestes casos, desespera mesmo.
    Quem cria expectativas deixa de estar em contacto com a realidade, eu acho. E em casos extremos, é mesmo um caminho suicida. A vida raramente - para não dizer que NUNCA é - o que esperámos ou planeámos. E, das duas uma: ou somos flexíveis o bastante para deixar que a vida nos questione, ou continuamos a não aceitar o óbvio com todo o desgaste físico e emocional que a negação acarreta.
    Conheço pessoas que não aceitam nem a vida nem os outros como são, vivem um inferno e, como se não bastasse, tornam a vida dos outros num inferno também. Infelizmente, são pessoas de família, das quais tomei a sábia decisão de me afastar emocionalmente devido à sua toxicidade.

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